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Psiquiatra explica por que as Bets são piores do que parecem – Dra. Juliana Fonseca

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Nesta entrevista, a psiquiatra Dra. Juliana Fonseca analisa como as apostas digitais se tornaram um grave problema de saúde pública no Brasil, comparando o vício comportamental à dependência química. A especialista explica o conceito de recompensa intermitente, um mecanismo psicológico que manipula o cérebro para criar ciclos de compulsão e perda de controle. O texto destaca a vulnerabilidade de jovens e pessoas de baixa renda, que frequentemente confundem o jogo com uma forma de investimento ou renda extra. Além disso, a médica critica a influência de celebridades na promoção dessas plataformas e alerta para as consequências devastadoras, como o endividamento extremo e o risco de suicídio. Por fim, ela enfatiza a necessidade urgente de educação financeira, regulação rigorosa da publicidade e suporte psicológico especializado para as famílias afetadas.


O Ciclo do Vício e as Armadilhas das Apostas Online: Uma Perspectiva Psiquiátrica

O cenário das apostas online no Brasil, impulsionado pelas “bets” e cassinos digitais, deixou de ser apenas um entretenimento para se tornar uma grave crise de saúde pública. De acordo com a Dra. Juliana Fonseca, o que começa como uma influência de redes sociais ou propagandas pode evoluir rapidamente para um estado compulsivo, onde o indivíduo perde o controle sobre o desejo de apostar.

A Ciência por trás do Vício: O “Algoritmo do Pombo”

O vício em apostas é classificado como uma dependência comportamental, agindo no cérebro de forma similar a substâncias químicas. O mecanismo central que mantém o apostador preso é a recompensa intermitente. Este conceito, estudado por B.F. Skinner na década de 30 com pombos, demonstra que o comportamento se torna compulsivo quando a recompensa é imprevisível.

Nas plataformas digitais, esse efeito é potencializado por:

  • Adestramento algorítmico: No início, as casas costumam “soltar” mais prêmios para condicionar o usuário a repetir o comportamento.
  • O fenômeno do “quase ganho”: As interfaces são desenhadas para celebrar quando o jogador “quase” ganha (como dois símbolos iguais e um diferente), o que estimula a dopamina e a vontade de continuar, apesar da perda real.
  • Dopamina vs. Certeza: O cérebro humano é mais seduzido pela possibilidade de um ganho grande e incerto do que pela certeza de um ganho pequeno e estável.

As Armadilhas da Publicidade e a Ilusão do Investimento

Um dos grandes problemas apontados é a confusão deliberada entre aposta e investimento. Dados mostram que 20% dos apostadores acreditam que as bets são uma forma de investimento, uma percepção perigosa reforçada por influenciadores que ostentam vidas luxuosas supostamente obtidas através de “cliques”.

A Dra. Juliana destaca que o uso de figuras de autoridade, como comentaristas esportivos e ídolos geracionais, confere uma falsa legitimidade às probabilidades de ganho. Além disso, o acesso facilitado — onde se abre uma conta em minutos via Pix e celular — reduziu drasticamente o esforço necessário para o ato de apostar, facilitando a recaída e o descontrole financeiro.

Grupos de Risco e Impacto Social

A dependência tem atingido perfis específicos de forma devastadora:

  • Adolescentes e Jovens Adultos: Devido à imaturidade do cérebro (córtex pré-frontal não totalmente formado), são mais impulsivos e vulneráveis ao apelo digital.
  • População de Baixa Renda: Muitos veem nas apostas uma esperança de ascensão social ou “renda extra” para realizar sonhos básicos, como comprar uma casa ou um carro.
  • Endividados: Pessoas já acostumadas com o uso de cheque especial tendem a ser mais “dessensibilizadas” ao risco financeiro, entrando em uma espiral de empréstimos e agiotagem.

A gravidade do transtorno do jogo é comparada ao vício em crack devido à velocidade da destruição patrimonial e à agressividade demonstrada pelos pacientes durante a abstinência.

O Desfecho Trágico e os Desafios do Tratamento

O risco de suicídio entre dependentes de jogos é 15 vezes maior do que na população geral, frequentemente motivado pelo sentimento de desesperança, culpa e vergonha após a perda total de bens familiares.

O tratamento é complexo e exige:

  1. Controle Financeiro Total: A família deve assumir as finanças, bloqueando Pix e cartões, e o paciente deve voltar a lidar apenas com dinheiro em espécie para recuperar a percepção de valor.
  2. Educação e Psicoterapia: Entender que “a casa sempre ganha” e identificar gatilhos emocionais (como tédio ou estresse).
  3. Abstinência “Só por Hoje”: Como em outros vícios, a recuperação é um processo contínuo sem promessas de “cura” definitiva, focando na prevenção diária.

A especialista conclui que, além da regulamentação estatal e da fiscalização da publicidade, é fundamental implementar a educação financeira desde as escolas, ensinando conceitos reais de probabilidade para desmistificar as ilusões criadas pela indústria das apostas.

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