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A Faca e o Fogão: dois retratos da mesma desistência

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A Faca e o Fogão: dois retratos da mesma desistência

A imagem é simples, quase banal: um vendedor explica que os fogões em exposição estão sem os acendedores porque “o povo rouba” — algumas vendas, infelizmente, foram feitas com desconto porque não tinham acendedores e nem botões. Agora, as peças são retiradas da vitrine para evitar furtos, mas quem compra o fogão de fato leva o produto completo para casa. Não é uma denúncia trágica, é um procedimento prático. Em algum lugar, alguém decidiu que é mais barato proteger o mostruário do que confiar no freguês que passa pela loja. O brasileiro, nessa lógica, é tratado como um cliente que precisa ser vigiado até mesmo antes de comprar.

Mas essa mesma lógica se repete fora das lojas de eletrodomésticos. Ela aparece nas ruas, nos becos, nas portas das casas onde trabalhadores honestos são recebidos não com um “obrigado”, mas com o frio do aço contra a garganta.

Pense no entregador de iFood. Um jovem, talvez nem tenha completado 25 anos. Sua bicicleta é seu escritório, seu celular é sua agenda, sua carteira de trabalho. Ele para na frente da casa do cliente, espera o atendimento, fazendo o que faz todos os dias — correndo contra o tempo para não tomar nota baixa, para não perder o bônus, para pagar o aluguel.

É nesse instante que outro jovem, talvez da mesma idade, se aproxima. Não com um pedido de ajuda, mas com uma faca. O entregador cai de joelhos. Chora. Implora. Não pela vida — que parece valer pouco — mas pela bicicleta e pelo celular. “Por favor, não leva minhas ferramentas de trabalho. É só o que tenho.”

O meliante não hesita. Leva tudo. Sem dó, sem piedade, sem um olhar para trás.

Eis o Brasil que a imagem do fogão sem acendedor escancara: um país onde o trabalho é tratado como algo descartável, tanto por quem deveria protegê-lo quanto por quem o interrompe com violência. O vendedor que tira as peças da vitrine aprendeu, na prática, que não pode confiar em quem passa pela loja. O bandido que rouba a bicicleta age como se o entregador fosse apenas mais um “otário” que vai “dar um jeito”. Ninguém espera que o outro seja honesto. Ninguém aposta no esforço alheio.

O que impressiona nessa cena não é o crime em si — infelizmente, já é rotina. O que impressiona é o desprezo pelo trabalho. O bandido não levou apenas um bem material. Levou a capacidade daquele jovem de trabalhar no dia seguinte. Levou a esperança de que suor e dedicação são recompensados. E, ao fazer isso, ele não age sozinho: ele age como o espelho de uma sociedade que naturalizou a ideia de que trabalhar é para otários, e sobreviver é para espertos.

Enquanto isso, o entregador fica no chão, sem bicicleta, sem celular, sem cliente. E, no dia seguinte, se tiver forças para recomeçar, ele vai descobrir que o fogão novo que comprar — ou que sonhar em comprar — virá completo, sim, com todas as peças. Porque, no fundo, o vendedor sabe que o cliente pagante merece o produto inteiro. O problema é que, para a sociedade, o trabalhador que cai de joelhos continua sendo tratado como se estivesse em vitrine: bonito de ver, mas fácil de roubar.

E a pergunta que fica não é sobre o governo, nem sobre incentivos fiscais, nem sobre políticas públicas. A pergunta é mais primitiva: quando vamos parar de tratar o trabalho como um favor e começar a tratá-lo como uma dignidade que merece ser protegida? Enquanto o trabalhador for visto como alvo fácil, enquanto o esforço for motivo de piada, enquanto o “jeitinho” for mais valorizado que a honestidade, o entregador continuará de joelhos — não apenas diante da faca, mas diante de uma nação que escolheu rir do próprio caos.

A imagem do fogão sem acendedor na vitrine — e dos botões que já foram vendidos com desconto pela falta deles — e a cena do entregador roubado são dois lados da mesma moeda. De um lado, o comércio que se protege de furtos eventuais. Do outro, o crime que destrói vidas reais. No meio, um povo que aprendeu a sobreviver sem acreditar que o trabalho pode, sim, ser o caminho.

Até quando?

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