O vídeo investigativo de Adriano Wilkson expõe um conflito fundiário no Pará, onde 194 famílias do MST ocuparam a fazenda Entre Rios, uma área pública federal destinada à reforma agrária. O repórter denuncia que a governadora Hana Ghassan utilizou forças policiais para cercar os acampados e impedir o acesso a água e comida, favorecendo a influente família Miranda Cruz. Embora os fazendeiros aleguem propriedade legítima, documentos do Incra apontam tentativas de regularização fraudulenta e confirmam que a terra pertence à União. A narrativa destaca a disparidade de poder entre latifundiários conectados à política e trabalhadores rurais que lutam pelo direito básico à terra. Wilkson critica a atuação do Estado e da imprensa comercial, argumentando que a lei está sendo ignorada para proteger os interesses econômicos do agronegócio na Amazônia.
A Fraude do Agronegócio: Como Terras Públicas são Griladas no Pará
A narrativa comum na imprensa comercial e no senso comum frequentemente coloca o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como invasor e o fazendeiro como proprietário legítimo. No entanto, a análise de documentos oficiais sobre o Projeto de Assentamento Maria da Glória, no Pará, revela uma inversão desses papéis: a história de uma elite agrária que ocupa terras da União e utiliza o aparato estatal para proteger posses ilegais.
A Família Miranda Cruz e a Ocupação da “Entre Rios”
A família Miranda Cruz, originária de Goiás, chegou ao Pará na década de 1970 para “abrir as matas” e atuar nos setores madeireiro, de minério e pecuária. Além da riqueza acumulada com o gado, a família possui histórico de mineração ilegal de ametista, tendo sido multada pelo IBAMA.
O conflito central gira em torno da Fazenda Entre Rios, localizada na divisa entre Marabá e Parauapebas. Embora a família alegue ser “dona legítima” da área há mais de 30 anos, a propriedade está situada dentro da Gleba Itacaiunas Parte 2, uma área comprovadamente pertencente à União, ou seja, ao Estado brasileiro.
As Estratégias de Fraude e Grilagem
Para tentar legalizar a ocupação de terras públicas, a legislação de 2009 exige que o ocupante não possua outra terra e que a área seja inferior a 2.500 hectares. Como a família Miranda já possui inúmeras fazendas e a área em questão tinha quase 5.100 hectares, o Incra identificou um esquema de fracionamento fraudulento.
As táticas utilizadas incluíram:
- Uso de “Laranjas”: O processo de regularização foi aberto em nome de Arnaldo Souza da Conceição, um agrimensor, para ocultar o verdadeiro beneficiário, José Miranda Cruz.
- Divisão Artificial: A terra foi dividida no papel em duas fazendas distintas com nomes e “proprietários” diferentes para burlar o limite máximo permitido por lei.
- Continuidade da Exploração: Vistorias do Incra comprovaram que, na prática, tratava-se de uma única fazenda com sede, funcionários e gado pertencentes aos Miranda, configurando má-fé.
A Advocacia-Geral da União (AGU) e o Incra classificaram a conduta como invasão de terra pública com intenção de lucro, o que caracteriza crime segundo a legislação brasileira.
O Papel do Estado e a Violência Policial
Apesar da irregularidade jurídica dos fazendeiros, o governo do Pará, sob o comando de Hana Gassan, agiu prontamente em defesa da família Miranda. No dia 1º de maio, após o MST ocupar a área para reivindicar a reforma agrária, a governadora determinou que as polícias civil e militar garantissem a “segurança jurídica” e o “direito à propriedade”.
A atuação policial foi marcada por medidas extremas: por vários dias, a polícia cerrou o acampamento do MST, impedindo que os trabalhadores recebessem água e comida. Essa situação de “cerco humanitário” só foi interrompida após a intervenção da Defensoria Pública e do Ministério Público.
A Luta pela Reforma Agrária
Em dezembro de 2025, o Incra publicou uma portaria destinando a Fazenda Entre Rios para a reforma agrária. No entanto, o projeto de assentamento ainda enfrenta dificuldades para sair do papel devido ao poder econômico e político dos ocupantes ilegais, que conseguem mobilizar o aparato estatal a seu favor.
Atualmente, a situação em Parauapebas permanece tensa, evidenciando uma luta desigual: de um lado, fazendeiros com influência política, recursos financeiros e apoio policial; do outro, trabalhadores rurais que possuem a razão jurídica, mas enfrentam a força de um sistema que prioriza o patrimônio privado sobre o bem coletivo.
