O Parque da Cidade, em Belém, nasceu de uma promessa grandiosa de transformar a capital paraense, mas tornou-se o centro de uma investigação que aponta para um possível escandaloso superfaturamento e abandono de projeto. O que deveria ser o “parque mais bonito do Brasil” é hoje descrito como um “elefante branco” que custou 15 vezes mais do que o previsto originalmente.
Abaixo, detalhamos as principais ideias e denúncias apresentadas sobre a obra:
1. A Promessa de um Marco Urbanístico
Em maio de 2023, o governo do Pará anunciou o início das obras do Parque da Cidade como a maior intervenção urbanística contemporânea de Belém. O projeto prometia uma área dez vezes maior que a Praça da República, incluindo itens de lazer e cultura como:
- Cinema, estúdio de gravação e biblioteca.
- Teatro multiuso, oratório da água e da luz, e uma torre de contemplação.
- Um vasto projeto de arborização com mais de 80 espécies de árvores para combater o sol forte da cidade.
2. Um Processo Inicialmente Democrático
O diferencial da obra seria sua origem: o projeto não foi imposto, mas fruto de uma consulta popular via aplicativo, onde os moradores sugeriram o que queriam no parque. Com base nessas demandas, foi realizado um concurso nacional de arquitetura, vencido pelo escritório paulista “Firma” com o projeto “Parque para Todos”. O foco principal do projeto vencedor era a criação de muita sombra, essencial para o clima de Belém.
3. O “Sonho” vs. A Realidade Incompleta
Apesar da inauguração em junho de 2025 para receber a COP 30, o parque entregue está longe do prometido.
- Estruturas Faltantes: Não foram entregues o cinema, o museu da aviação, o estúdio de gravação, a torre de observação ou o oratório.
- Falta de Sombra: As poucas árvores plantadas ainda são pequenas, deixando o local sob sol escaldante e pouco convidativo para as famílias.
- Abandono: Relatos mostram lojas fechadas, estruturas desertas e um aspecto de desperdício de dinheiro público.
4. O Escândalo dos R$ 980 Milhões
A informação mais chocante reside na discrepância de valores. O projeto original dos arquitetos, elaborado em 2020, estimava o custo total do parque em aproximadamente R$ 65,7 milhões. No entanto, o valor final divulgado pelo governo para a entrega de menos da metade do projeto foi de R$ 980 milhões — um aumento de 15 vezes.
Para efeito de comparação, o Parque Madureira, no Rio de Janeiro (um dos maiores do país), custou cerca de R$ 67 milhões em 2010, valor alinhado à estimativa inicial do projeto de Belém.
5. A Conexão com a Vale e a Falta de Transparência
A obra foi executada pela mineradora Vale através do programa “Estrutura Pará”. Este programa permite que mineradoras abatam até 40% de dívidas fiscais (como a taxa TFRM) realizando obras para o estado.
- Incentivo ao Sobrepreço: A análise sugere que, quanto mais inflacionado o valor da obra, mais dívida a Vale consegue abater junto ao governo.
- Blindagem de Dados: Como a obra é executada por uma empresa privada (Vale), o governo e a mineradora se recusam a detalhar notas fiscais e contratos, dificultando a fiscalização pública sobre o uso desse “dinheiro de dívida”.
6. Tragédia e Insegurança
A situação de precariedade culminou em uma tragédia em julho de 2026, quando um jovem de 16 anos, Kelvin Paixão Rocha, morreu eletrocutado enquanto brincava perto da pista de skate do parque. O acidente ocorreu um dia após uma manutenção nos refletores do local, levantando sérias questões sobre a segurança e a qualidade das instalações de uma obra que custou quase um bilhão de reais.
Em suma, o Parque da Cidade é apresentado não apenas como uma obra incompleta, mas como um mecanismo obscuro de renúncia fiscal e má gestão, onde o alto investimento financeiro não se refletiu em benefício real ou segurança para a população de Belém.
