O Crepúsculo da Soberania: Uma Reflexão sobre a Intervenção na Venezuela em 2026
O dia 3 de janeiro de 2026 marca um ponto de ruptura na história moderna, não apenas pela captura de Nicolas Maduro pelas forças dos Estados Unidos, mas pelo que o evento simboliza: o colapso prático da soberania nacional. Este conceito, estabelecido desde a Paz de Vestfália em 1648, garantia que cada país teria o direito de decidir seus próprios rumos, mas, na prática, foi substituído por uma "ação de polícia global" motivada por uma tríplice de interesses: lei penal, geopolítica e controle de recursos estratégicos.
O Petróleo como Benção e Maldição
A análise apresentada nas fontes revela que a crise venezuelana não pode ser compreendida apenas por discursos ideológicos, mas sim pelo que jaz no subsolo: as maiores reservas de petróleo do planeta. Essa riqueza moldou um "petroestado" onde, historicamente, uma elite técnica e econômica (a burguesia compradora) lucrava ao intermediar negócios com empresas estrangeiras, mantendo a classe trabalhadora à margem do desenvolvimento real.
A ascensão do chavismo e, posteriormente, de Maduro, representou uma tentativa de redirecionar a renda do petróleo para programas sociais (missiones), o que colocou o país em confronto direto com as grandes petrolíferas e com a hegemonia de Washington. O conflito real, portanto, não é meramente sobre democracia — visto que os EUA mantêm alianças com regimes autoritários quando lhes convém — mas sobre o controle soberano da energia e a desvinculação do dólar.
A Construção do Pretexto e a Estratégia de Espoliação
A intervenção de 2026 é descrita como o estágio final de um processo de "acumulação por espoliação", onde potências usam crises internas e pressões econômicas para tomar o poder e os recursos de nações mais fracas. As fontes detalham uma escalada de décadas:
- O golpe fracassado de 2002.
- O reconhecimento de Juan Guaidó em 2019, que serviu como uma "ficção jurídica" para o confisco de ativos venezuelanos no exterior, como a refinaria Citgo e o ouro em Londres.
- A tentativa de incursão por mercenários privados na Operação Gadeão em 2020.
- O uso das falhas de transparência nas eleições de 2024 como o argumento moral definitivo para justificar o uso da força bruta em 2026.
O Padrão Histórico e o Perigo para o Sul Global
Ao olhar para o passado, as fontes traçam um paralelo sombrio com intervenções na Guatemala (1954), Chile (1973), Iraque (2003) e Líbia (2011). Em todos esses casos, a retórica da "liberdade" resultou em destruição institucional, violência prolongada e transferência de recursos para mãos estrangeiras. O risco iminente para a Venezuela é a "libianização": um cenário onde a remoção da liderança central fragmenta o país em milícias, transformando a crise política em um conflito militar difuso e permanente.
Para o Brasil e outras nações do Sul Global, a lição é dura: o direito internacional e a imunidade diplomática mostram-se frágeis diante de interesses estratégicos hegemônicos. A soberania, no mundo atual, parece depender menos de tratados e mais de capacidade material e alianças de dissuasão. Defender o princípio da soberania não significa necessariamente apoiar um governo específico, mas defender que cada povo tenha o direito de resolver seus próprios conflitos internos sem a imposição da força externa.
Em suma, quando o diálogo é substituído por mísseis, a democracia deixa de ser um valor e torna-se apenas uma ferramenta de retórica para validar a força bruta. Se a intervenção militar for normalizada como solução para crises políticas, nenhum país com recursos estratégicos estará verdadeiramente seguro.
Analogia para reflexão: Imagine que uma vizinhança decide que, se uma família estiver brigando e não conseguir gerir suas contas, o vizinho mais forte do quarteirão tem o direito de arrombar a porta, prender os pais e assumir a escritura da casa, alegando que fará uma "gestão melhor" do jardim. No final, o jardim é reformado, mas a família perde sua casa e o vizinho forte agora controla quem entra e quem sai, ficando com os frutos das árvores que eles plantaram.
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Quais motivos materiais explicam as intervenções dos Estados Unidos historicamente?
Historicamente, as intervenções dos Estados Unidos são impulsionadas pelo que as fontes definem como "acumulação por espoliação", um processo em que potências utilizam crises políticas e pressões econômicas para tomar o controle de recursos e da autonomia de nações mais fracas. Embora o discurso superficial frequentemente utilize justificativas morais, como a defesa da democracia ou o combate ao narcotráfico, os motivos reais residem em interesses materiais específicos.
De acordo com as fontes, os principais motivos materiais incluem:
- Controle de Recursos Energéticos: O petróleo é o fator central em diversas intervenções. No Iraque (2003), o objetivo era o controle das reservas petrolíferas e a garantia de contratos para multinacionais de serviços. Na Líbia (2011) e na Venezuela, o foco é a apropriação de vastas reservas para empresas estrangeiras e a manutenção do fornecimento barato para os interesses de Washington.
- Proteção de Lucros Corporativos: Na Guatemala (1954), a intervenção visou proteger os lucros da United Fruit Company, uma multinacional americana que temia perder terras e o controle das exportações de banana para uma reforma agrária local.
- Implementação do Neoliberalismo: No Chile (1973), a motivação material foi a desnacionalização do cobre e a abertura da economia para o capital financeiro global através de privatizações em massa e do enfraquecimento do estado social.
- Manutenção de Infraestrutura Estratégica: No caso do Panamá (1989), a motivação real era garantir o controle estratégico sobre o Canal do Panamá, reafirmando o poder militar e comercial na região.
- Hegemonia do Dólar: As intervenções também buscam punir nações que tentam sair da órbita do dólar. Na Líbia, um dos motivos reais foi impedir a criação de uma moeda pan-africana que daria independência econômica ao continente.
- Saque Internacional de Ativos: As fontes descrevem que disputas políticas podem ser usadas como "ficção jurídica" para o confisco de ativos no exterior, como ocorreu com as refinarias da Citgo e as reservas de ouro venezuelanas.
Em suma, as fontes sustentam que a "liberdade" prometida em intervenções militares muitas vezes significa, na prática, a liberdade para o capital estrangeiro operar sem limites, resultando na transferência de recursos estratégicos de mãos nacionais para mãos estrangeiras.
Analogia para reflexão: É como se um vizinho forte decidisse invadir a casa de um vizinho mais fraco alegando que o jardim está mal cuidado. No entanto, após expulsar o dono da casa, o vizinho forte não apenas assume a gestão do jardim, mas começa a vender as frutas das árvores para si mesmo e tranca a despensa da família, alegando que agora aquela comida pertence ao "comitê de gestão da vizinhança". No final, o jardim pode parecer aparado, mas a família original ficou sem casa e sem sustento.
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Como o petróleo moldou a estrutura social e estatal venezuelana?
O petróleo é o elemento central que define a identidade da Venezuela, transformando o país no que as fontes chamam de "petroestado". Essa condição, iniciada há mais de um século com a descoberta do poço Barroso 2 em 1922, moldou profundamente a economia, a política e a hierarquia social do país.
Abaixo, detalho como essa riqueza moldou as estruturas venezuelanas:
1. A Estrutura do Estado: O "Estado Forte no Papel"
O fluxo maciço de capital proveniente da extração de um único produto permitiu ao governo financiar políticas públicas sem a necessidade de cobrar muitos impostos da população. Isso criou um Estado que parece muito forte e centralizador, mas que possui uma estrutura produtiva frágil, pois o país passou a depender quase totalmente da exportação de petróleo bruto, negligenciando outros setores industriais ou tecnológicos.
2. A Formação da "Burguesia Compradora"
A riqueza petrolífera deu origem a uma elite econômica específica que as fontes denominam burguesia compradora. Diferente de burguesias de países industrializados, essa elite não vive da produção de bens, mas sim:
- Da renda direta do petróleo.
- Da importação de produtos estrangeiros.
- Da intermediação de negócios entre o Estado e empresas transnacionais.
3. Conflito de Classes e a Gestão da Renda
Historicamente, o Estado funcionava como um administrador que distribuía os lucros do petróleo prioritariamente para empresas estrangeiras e para a elite local, deixando apenas uma parcela mínima para a classe trabalhadora.
A ascensão do chavismo e, posteriormente, do governo Maduro, representou uma ruptura nesse modelo:
- O Estado retomou o controle real da estatal PDVSA, que antes era gerida por uma elite tecnocrática alinhada ao capital estrangeiro.
- A renda foi redirecionada para programas sociais conhecidos como "missiones".
- Essa mudança alterou o fluxo do dinheiro, colocando o governo em confronto direto com a classe dominante local e com as potências estrangeiras (especialmente os EUA), que viam seus lucros e sua influência diminuírem.
4. A "Maldição dos Recursos" e o Cerco Externo
A dependência extrema do petróleo tornou a Venezuela vulnerável a oscilações de mercado e a pressões geopolíticas. As fontes indicam que o controle sobre as maiores reservas do planeta transformou o país em um alvo de "acumulação por espoliação". Para os EUA, a tentativa venezuelana de gerir soberanamente seu petróleo, buscar parcerias com China e Rússia e se desvincular do dólar foi vista como uma ameaça à sua hegemonia e segurança energética.
Analogia para reflexão: A estrutura da Venezuela sob o petróleo é como uma casa construída sobre uma mina de ouro, onde os moradores pararam de plantar comida ou consertar o telhado porque podiam simplesmente vender pepitas para comprar tudo de fora. Enquanto o dono da casa e alguns vizinhos ricos dividiam o ouro, a família vivia com as sobras; quando o dono decidiu usar o ouro para reformar os quartos das crianças, os vizinhos ricos se revoltaram e chamaram o "xerife" do bairro para retomar o controle da mina.
Quais precedentes históricos de intervenção o autor utiliza como comparação?
O autor utiliza uma série de intervenções dos Estados Unidos ao longo do século XX e XXI para estabelecer um padrão de comportamento geopolítico que ele denomina "acumulação por espoliação". Ele argumenta que, embora os pretextos oficiais sejam morais ou jurídicos, as motivações reais são invariavelmente materiais e estratégicas.
Os principais precedentes citados são:
- Guatemala (1954): O pretexto foi o combate ao comunismo, mas a motivação real era proteger os lucros da United Fruit Company contra uma reforma agrária. O resultado foi um golpe da CIA e uma guerra civil de 36 anos com milhares de mortos.
- Chile (1973): O autor aponta que a intervenção visava derrubar Salvador Allende para implementar o neoliberalismo e a desnacionalização do cobre. Isso resultou em uma ditadura com milhares de desaparecidos e destruição da soberania econômica.
- Panamá (1989): Este caso é usado como uma comparação direta com a Venezuela de 2026, pois o pretexto foi o combate ao narcotráfico e a captura de um líder (Manuel Noriega) reclassificado como criminoso comum. O objetivo material era manter o controle estratégico sobre o Canal do Panamá.
- Iraque (2003): A justificativa de "armas de destruição em massa" é descrita como uma fachada para o controle de reservas petrolíferas e a garantia de contratos para multinacionais como a Halliburton. O saldo foi a fragmentação do estado e a ascensão de grupos extremistas.
- Líbia (2011): A intervenção da OTAN, sob a justificativa de proteger civis, é vista como um esforço para impedir uma moeda pan-africana, controlar o petróleo e bloquear a influência da China. O autor destaca o risco de "libianização" da Venezuela, onde a remoção do líder central causa o colapso do Estado e a fragmentação do país em milícias.
O autor conclui que a Venezuela de 2026 assemelha-se ao Panamá pelo método de captura da liderança, mas corre o risco de seguir o destino da Líbia devido à sua vasta extensão territorial, população armada e riqueza energética estratégica, o que pode levar a um conflito difuso e prolongado.
Analogia para reflexão: É como se uma grande corporação de segurança, ao ver uma briga no condomínio vizinho, decidisse invadir o local alegando "proteção dos moradores", mas, uma vez dentro, trocasse as fechaduras, assumisse o controle do poço artesiano do condomínio para vender a água e enviasse a conta da invasão para os próprios moradores pagarem. No final, a briga acaba porque ninguém mais tem casa, e a corporação agora é a dona do recurso que todos precisavam.
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Por quais outros motivos os americanos tem interesse na Venezuela?
Primeiro: libertar o povo.
Segundo: controlar o narcotráfico na América Latina, pois está enviando drogas para o mundo inteiro.
Terceiro: o petróleo venezuelano sustenta os terroristas.
Quarto: o petróleo venezuelano está servindo a Rússia na guerra contra Ucrânia.
Quinto: os americanos querem baixar o preço do petróleo no mundo.
Então sim, isso será monitorado e controlado pelos Estados unidos.
