Absolutismo, Birras e "Senador Astronauta": O Poder Monocrático e o Colapso do Diálogo no Senado
A imagem ideal de uma câmara alta parlamentar é a de uma "casa de pares", onde decisões estratégicas nascem do consenso colegiado e do debate democrático. No entanto, os bastidores e os trabalhos de plenário do Senado Federal revelam uma realidade autocrática e tensa, marcada pelo domínio absoluto da mesa diretora sobre a pauta do país.
A recente altercação entre a oposição e o senador Davi Alcolumbre expõe mais do que picuinhas pontuais: revela a antecipação da disputa pelo comando do Congresso Nacional. Com o senador Rogério Marinho atuando como coordenador da candidatura de Flávio Bolsonaro e nomes como a senadora Tereza Cristina também se movimentando para o pleito, a dinâmica legislativa virou palco de um colapso institucional.
1. "O Estado Sou Eu": O Poder Monocrático e o Apelido de "Luís XIV"
O embate no plenário entre o senador Rogério Marinho e Davi Alcolumbre expôs as fraturas na condução dos trabalhos legislativos. Ao questionar a retirada da pauta das matérias sobre segurança pública e redução da maioridade penal, Marinho foi confrontado de forma direta por Alcolumbre, que justificou a alteração afirmando tratar-se estritamente de uma "decisão da presidência".
Diante do arbítrio explicitado, Marinho alertou sobre a urgência de alterar as regras da Casa ("é bom saber que a gente precisa mudar esse regimento"). A réplica de Alcolumbre veio acompanhada de um sorriso irônico e de uma sarcástica provocação — "Exatamente, vamos mudar" —, cortando o debate abruptamente e passando a fala com um seco "com a palavra o senador astronauta Marcos Pontes". A atitude levou Marinho a comparar Alcolumbre ao rei francês Luís XIV, acusando-o de atuar como agente do governo em vez de atuar como magistrado neutro.
"O presidente Davi foi parafraseando Luís XIV: 'o estado sou eu'. Nós somos uma casa de pares O presidente Davi a serviço do governo, abrindo mão da sua posição de magistrado, mais uma vez fica de costas para a sociedade."
2. Feitiço Contra o Feiticeiro: A Ironia da Oposição com o "Gigante" de 2019
A atual insatisfação da oposição carrega uma pesada ironia política. Como ponderou o comentarista Guilherme Piperno, aplica-se perfeitamente à situação o ditado "quem pariu Mateus que o embale", visto que foram o próprio PL e seus aliados que, em 2019, impulsionaram a ascensão de Alcolumbre à presidência e ajudaram a moldar uma figura politicamente hipertrofiada.
Ao longo dos últimos anos, mudanças regimentais fragilizaram e extinguiram na prática o colégio de líderes, enfraquecendo as decisões compartilhadas. Essa transformação concentrou um poder autocrático na presidência, impondo uma engrenagem que agora a própria oposição tenta combater enquanto articula alternativas de poder com Flávio Bolsonaro e Tereza Cristina.
3. O "Quizar do Amapá" e a Gaveta das Pautas Estruturantes
As críticas ao controle monocrático estendem-se ao represamento deliberado de pautas cruciais para o país. Classificado pelo comentarista Alan Gani como o "Quizar do Senado" ou "Quizar do Amapá", Alcolumbre é apontado como o retrato do patrimonialismo brasileiro, renegando o papel do Senado como representação dos estados para sobrepor interesses privados ao interesse público.
Sob essa centralização absolutista, projetos de grande impacto orçamentário e apelo popular permanecem travados na gaveta da presidência. Entre as matérias paralisadas por decisão unipessoal, destacam-se:
O fim dos penduricalhos e super-salários, engavetado há anos, que custa bilhões anualmente para beneficiar uma pequena elite do Poder Judiciário;
A PEC da Segurança Pública, mantida há longo período sem deliberação;
Os pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
4. "A Sociedade está Doente": O Senado Refém do Colapso do Diálogo
A crise institucional reflete-se na rotina do plenário, dominada por bate-bocas e agressões verbais. Em discussões recentes, a tribuna virou palco de ataques cruzados, partindo da citação de que 73% da população carcerária teria votado em Lula no primeiro turno até acusações diretas de ligação com milicianos.
Em meio ao caos, Alcolumbre interveio exigindo o resgate da liturgia parlamentar e alertando para o contágio do radicalismo na Casa. O presidente ameaçou cortar os microfones dos senadores caso continuassem a gastar o tempo de fala com ofensas pessoais em vez de debaterem a pauta legislativa, como o PLP 186.
"Nós estamos ficando reféns dessas questões. A sociedade tá doente e a gente tá sendo contaminado por essa doença de ofensas e de agressões de todos os lados."
5. O Inusitado do Pitoresco: Entre Luís XIV, Danças e o "Senador Astronauta"
O cenário político no Senado expõe uma transição surreal entre o drama absolutista e o folclore parlamentar. A denúncia severa de autocracia estilo "Luís XIV" foi imediatamente sucedida pelo deboche pragmático da mesa, que despachou a palavra sem qualquer transição formal ao "senador astronauta Marcos Pontes", retomando a sessão como se nada tivesse acontecido.
Essa dualidade estende-se à própria imagem pública do presidente da Casa. Famoso nos bastidores por sua habilidade de articulação e viral nas redes sociais por seus dotes como "pé de valsa", Alcolumbre agora vê a oposição se organizar para tocar o que analistas já chamam de a "valsa do adeus" do seu grupo do comando do Congresso.
Considerações Finais
O choque antecipado pela sucessão no Senado demonstra que a paralisia legislativa não será resolvida por mero arranjo de bastidor. A disputa escancara a urgência de reformas estruturais no regimento interno para refrear deliberações monocráticas e devolver ao colegiado de líderes o controle da pauta nacional.
A simples substituição da presidência do Senado será suficiente para restabelecer a harmonia parlamentar, ou o regimento interno da Casa precisa de uma reformulação completa para evitar novos absolutismos?
Comentários (1)
Postar um comentário
O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *