Vender Livros é Fácil, Governar o Brasil é Outro Best-Seller: O Delírio Coletivo no Plano de Augusto Cury
O cenário político brasileiro, marcado pela exaustão e por uma polarização que beira o patológico, tornou-se o terreno fértil perfeito para o surgimento de figuras inusitadas. O mais novo capítulo desta saga é a incursão de Augusto Cury, autor com mais de 30 milhões de livros vendidos, na corrida presidencial. Mas o que acontece quando as fórmulas mágicas das prateleiras de autoajuda tentam se traduzir em políticas públicas? O plano "O Brasil dos Sonhos" levanta uma questão incômoda: é possível governar um país em crise estrutural usando as mesmas ferramentas que prometem "curar a ansiedade" em 200 páginas? Esta é uma análise franca e necessária sobre o abismo que separa o marketing editorial da dura realidade pragmática do Estado.
1. O "ChatGPT" da Autoajuda na Política
A primeira impressão ao analisar as propostas de Cury é a de um texto que flutua em abstrações, quase como se tivesse sido cuspido por um algoritmo viciado em clichês. A linguagem é genérica, carece de um "diálogo comum" e soa como um rascunho mal acabado de seus próprios best-sellers. Conceitos como "cultura da paz" e superação de "prisões psíquicas" são a epítome da perfumaria política.
Ao ler o plano, a sensação é de ouvir a música "Imagine", de John Lennon, em looping: um idealismo bobo que ignora que a política real é feita de conflitos de interesses, e não de abraços coletivos. A tentativa de vender uma "terceira via" baseada em saúde mental é um delírio; na prática, a terceira via não existe, servindo apenas para dispersar o foco do pragmatismo eleitoral urgente.
"Durante décadas estudei a mente humana, a construção dos pensamentos, os bastidores inconscientes da emoção e os fenômenos que transformam seres humanos brilhantes em prisioneiros de suas próprias ideias."
Essa abordagem poética falha miseravelmente em oferecer métricas. É o "suco" de ChatGPT: palavras bonitas que escondem a total ausência de substância técnica.
2. O Paradoxo da Gestão Financeira: De Pirâmides a Planaltos
Um ponto contraintuitivo e devastador sobre a viabilidade de Cury como gestor é o seu histórico financeiro. O autor, que se propõe a administrar o orçamento nacional e o complexo sistema do INSS — que por si só já é uma pirâmide demográfica em colapso —, foi notícia por perder R$ 31 milhões na pirâmide financeira Fictor.
Há sinais de alerta que qualquer analista pragmático percebe de longe: a Fictor patrocinava time de futebol (Palmeiras), um indicativo clássico de que "tem coisa aí". Se um homem que se diz mestre da mente humana e dos "bastidores da emoção" sucumbe à promessa infantil de rentabilidade fácil e garantida sem risco, como confiar a ele as chaves do Tesouro Nacional? O jumento médio quer garantia sem volatilidade, e Cury provou ser o cliente preferencial desse tipo de fantasia.
3. Revolução da Consciência vs. 50 Mil Homicídios
O plano de governo de Cury foca em uma "revolução silenciosa da consciência", propondo o abraço às divergências como solução para o conflito social. No entanto, a realidade brasileira é composta por dados brutos e sangrentos: o país registra cerca de 50.000 homicídios por ano.
Existe uma disparidade intransponível entre as "pontes da humanidade" propostas pelo autor e a violência urbana real que assola o cidadão. A proposta de Cury parece sugerir que devemos enfrentar o crime organizado com um buquê de rosas e meditação transcendental. Argumentar por uma mudança de mentalidade enquanto o Estado falha na segurança pública básica é mais que ingenuidade; é uma rendição intelectual diante da barbárie.
4. A Resiliência da Pobreza vs. a Fragilidade do Herdeiro
Uma das teses mais provocativas que emergem da crítica ao plano de Cury é a função da desigualdade sob uma ótica de resistência psicológica. Diferente da visão vitimista, o pragmatismo sugere que a superação das dificuldades é o que forja o caráter.
Nesse sentido, nascer pobre (no sentido do "pobre comum" que faz contas e enfrenta restrições) gera uma imunidade a pequenos aborrecimentos que o herdeiro rico dificilmente possui. Enquanto o filho da elite muitas vezes desenvolve complexos de inferioridade e uma necessidade patológica de provar o próprio valor para superar a sombra do pai, quem vence por mérito próprio adquire uma autoconfiança inabalável. A desigualdade, portanto, é vista como uma condição da natureza — presente de árvores a seres humanos — e o foco estatal deveria ser a liberdade para agir, não o nivelamento forçado.
5. Segurança Feminina e a Armadilha da Linguagem
O programa "Mulheres Vivas" é um exemplo de como Cury faz concessões perigosas à retórica progressista. O uso do termo "feminicídio" é uma armadilha linguística; trata-se de um conceito ideológico que busca coletivizar a culpa masculina em vez de focar na punição individual de criminosos.
O plano oferece delegacias especializadas e apoio psicológico — o tipo de medida que só atrai quem busca o "papaizinho Estado". O realismo, porém, aponta que a única defesa efetiva para uma mulher diante de um agressor fisicamente superior é o armamento.
"Quando uma mulher é assaltada na rua sozinha em uma situação de vulnerabilidade, o Ministério Público não vai estar lá por ela na hora, mas uma arma poderia estar lá por ela."
O "cultura da paz" de Cury omite o único equalizador de forças real, preferindo a burocracia do Ministério Público ao pragmatismo da legítima defesa.
6. Semicondutores no "Fazendão" do Mundo
No campo econômico, Cury apresenta o devaneio de transformar o Brasil em um polo de semicondutores — o "petróleo do século XXI". Embora a importância estratégica dos chips para a IA seja real, a proposta ignora a vocação econômica do país.
O Brasil é, em sua essência de mercado, um setor de "banco e fazenda". Tentar forçar uma indústria de altíssima tecnologia em um ambiente de insegurança jurídica e infraestrutura precária, onde ninguém quer sequer comprar um computador nacional, é uma ambição irrealista. É o tipo de plano que brilha no papel para quem não entende de commodities ou logística, mas que derrete ao primeiro contato com a realidade tributária brasileira.
7. Conclusão: O Abismo entre o Papel e a Prática
O plano de governo de Augusto Cury é, em última análise, um exercício performativo. Ele é rico em sentimentos e pobre em fatos; abundante em palavras bonitas e escasso em soluções técnicas. Como bem observou o crítico José CR Neto, o fato de Cury vender 30 milhões de livros enquanto clássicos são encontrados apenas em sebos é um sintoma do baixo nível intelectual do brasileiro médio.
Esse eleitor, que se deixa levar por textos sem pé nem cabeça que "mexem com o coração", é a presa perfeita para o messianismo da autoajuda. O perigo é trocarmos a gestão pública por uma palestra motivacional interminável.
Fica a reflexão: estamos prontos para governar com o pragmatismo de quem entende de volatilidade e risco, ou continuaremos comprando best-sellers na urna eletrônica apenas para descobrir, tarde demais, que o final da história é uma falência coletiva?

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