De Palavras Cruzadas à Presidência: 5 Fatos Surpreendentes sobre a Origem Política de Jair Bolsonaro
A trajetória que levou um capitão do exército sem nenhuma projeção nacional ao topo do poder político no Brasil é repleta de enigmas históricos e viradas contraintuitivas. Para a maioria dos brasileiros, a figura de Jair Messias Bolsonaro emergiu de forma abrupta no cenário nacional durante a última década. No entanto, sua construção pública começou quase meio século antes de ele se consolidar como a maior liderança da direita no país.
Curiosamente, a primeira aparição do nome "Jair M. Bolsonaro" em um jornal de grande circulação não teve qualquer relação com a política ou com a caserna. Em 14 de dezembro de 1971, a edição de O Estado de S. Paulo trazia o nome de um jovem morador de Eldorado Paulista nos créditos de envio de uma página de palavras cruzadas. Foram necessários mais 15 anos para que aquele mesmo nome voltasse ao noticiário, dessa vez abrindo caminho para uma carreira pública marcada pela provocação, pela quebra de liturgias e pelo cálculo político.
Ao longo desse percurso de quase três décadas na vida pública, o elemento central que guiou sua ascensão e serviu de fio condutor para o seu eleitorado foi sintetizado em 1986 pelo próprio Serviço de Informações do Exército, ao registrar a reação da tropa aos seus primeiros atos de insubordinação: a percepção coletiva de que "alguém tinha que falar". Abaixo, analisamos 5 fatos surpreendentes que explicam a origem e a evolução dessa trajetória.
1. O primeiro ato de projeção foi um protesto salarial na revista Veja (e uma prisão)
Em setembro de 1986, o Brasil vivia os primeiros momentos da Nova República sob o governo civil de José Sarney e o impacto das medidas do Plano Cruzado. Aos 31 anos, o então capitão da ativa Jair Bolsonaro cometeu um ato inédito de insubordinação militar: assinou o artigo "O salário está baixo" na seção Ponto de Vista da revista Veja (edição de 3 de setembro de 1986). No texto, acompanhado de sua foto e patente, Bolsonaro denunciava a evasão de cerca de 80 cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) motivada pelo descontentamento salarial e pela perda do poder de compra da tropa.
A publicação caiu como uma bomba no Ministério do Exército, comandado pelo general Leônidas Pires Gonçalves. Contudo, relatórios do Centro de Informações do Exército revelam uma reação ambivalente dentro das Forças Armadas. Em um telex registrado em 1º de setembro de 1986 — dois dias antes de a revista chegar às bancas —, a inteligência militar anotou que o artigo repercutira favoravelmente na grande maioria do público interno do Comando Militar do Leste (CML) e na Brigada Paraquedista, onde se ouvia o comentário repetido de que "alguém tinha que falar". Já em Porto Alegre, a reação dos comandos foi extremamente negativa: três oficiais manifestaram apoio ao capitão e dois acabaram punidos por transgressão disciplinar grave.
"O artigo do epigrafado [] colaborou de certa forma para desfazer junto ao público externo uma antiga ideia de que os militares são bem remunerados e gozam de mordomias." — Relatório do Serviço de Informações do Exército (1986)
Apesar de o relatório admitir a precisão do diagnóstico salarial, Bolsonaro cumpriu 15 dias de prisão disciplinar por ferir a hierarquia. O episódio ganhou contornos ainda mais dramáticos em outubro de 1987, quando a repórter Cásia Maria publicou uma nova matéria na Veja atribuindo a Bolsonaro e ao capitão Fábio Passos da Silva um plano de explosão de bombas em unidades militares — como a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESA) — em protesto contra os vencimentos. O caso gerou sindicância e um Conselho de Justificação que votou contra o capitão. Contudo, em 16 de junho de 1988, o Superior Tribunal Militar (STM) julgou Bolsonaro não culpado por maioria de votos. Absolvido, ele passou para a reserva remunerada em dezembro de 1988, aos 33 anos, pronto para migrar para a política civil.
2. Ele começou como "sindicalista da caserna" (e propunha controle de natalidade)
A transição de Bolsonaro para a política institucional ocorreu de forma artesanal. Candidato a vereador no Rio de Janeiro pelo Partido da Juventude Católica (PDC) em 1988, sua campanha baseou-se em 15 faixas, 50 camisetas com o slogan "A crise é de homens" e panfletagem direta na porta da Escola de Sargentos, nas vilas militares e nos bares da rua dos Abacates, em Deodoro, montado em uma motocicleta.
Eleito vereador com 17.681 votos e, dois anos depois (em 1990), deputado federal com mais de 67 mil votos, sua atuação não vinha respaldada pelos generais. Ao contrário: a cúpula das Forças Armadas rejeitava sua postura, enquanto oficiais superiores o acusavam de ter "ideias esquerdistas" por atuar como um autêntico líder sindical das baixas patentes. Nos registros do Congresso, a base do capitão expressava essa relação direta: o tenente Antônio Garcia, presidente da Federação das Associações de Militares da Reserva (FAMIR), afirmava que a abertura do canal político se devia à votação maciça da tropa, enquanto a esposa de um militar declarou na época que Bolsonaro era "nossa única esperança de conseguir a compra de apartamento".
Público-alvo primário: Militares de baixa patente (sargentos, cabos, reservistas) e suas famílias.
Primeira grande pauta nacional: Defesa do controle da natalidade (laqueadura voluntária em hospitais públicos), defendida sob a justificativa de conter o crescimento populacional e o temor explícito de "essa gente invadindo a zona sul". Defendia ainda restrições eleitorais, propondo que só diplomados pudessem se candidatar e alfabetizados pudessem votar.
Atuação no Congresso (1991–1994): Foco corporativo corporativista. Palavras como "militar", "forças armadas", "benefícios" e "pensões" apareceram 702 vezes nos resumos dos seus primeiros 279 discursos na Câmara.
3. O passado de elogios a Hugo Chávez, voto em Lula e ojeriza ao FMI
Durante os anos 1990 e início dos anos 2000, os posicionamentos de Bolsonaro passavam longe do liberalismo econômico ou do alinhamento tradicional da direita, aproximando-se do estatismo, da rejeição ao FMI, do antiamericanismo e de gestos surpreendentes a figuras da esquerda.
Pauta / Figura Política
Posicionamento Histórico de Jair Bolsonaro (Fonte Context)
Hugo Chávez (1999)
Declarou ao Estadão que Chávez era "uma esperança para a América Latina", comparou-o ao marechal Castelo Branco e cravou: "Ele não é anticomunista e eu também não sou".
Luiz Inácio Lula da Silva (1994/2002)
Em 1994, elogiou o caráter de Lula contrapondo-o a FHC. Admitiu voto em Lula no 2º turno de 1994 (após votar em Maluf no 1º) e no 2º turno de 2002 (após votar em Ciro Gomes no 1º).
Lobby para Ministros do PT/PCdoB
Defendeu publicamente a nomeação de José Genoino (PT) para o Ministério da Defesa por sua "competência e caráter" e articulou o nome de Aldo Rebelo (PCdoB).
Economia / Privatizações
Criticou a venda da Vale do Rio Doce no governo FHC, rejeitou as exigências do FMI e defendeu que o Brasil declarasse "uma meia moratória urgentemente".
Luiza Erundina (PT)
Agradeceu publicamente à deputada petista no plenário da Câmara pelo apoio prestado à classe militar quando ela foi prefeita de São Paulo.
O pragmatismo de sua atuação ideológica na época ficou registrado na tarde de 18 de dezembro de 2002. Bolsonaro apareceu de surpresa na Granja do Torto para fazer lobby por Aldo Rebelo no Ministério da Defesa do futuro governo Lula. Sob uma forte chuva, o capitão esperou por 45 minutos do lado de fora na tentativa de ser recebido pelo presidente eleito, sem sucesso.
"Não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar [] Confesso publicamente que eu votei no segundo turno no Lula." — Jair Bolsonaro em declarações à imprensa e no Congresso (1999/2002)
4. A defesa aberta do modelo de Alberto Fujimori e da ditadura de exceção
Em 1993, em meio à crise do governo Itamar Franco (pós-impeachment de Fernando Collor) e à hiperinflação, Jair Bolsonaro usou a tribuna da Câmara e entrevistas à imprensa internacional para pregar abertamente o fechamento do Congresso e a adoção de medidas autoritárias.
Em entrevista ao The New York Times, em 1993, o parlamentar contrastou os dados econômicos do regime militar (crescimento de 6% ao ano e capacidade da população de comprar um carro em 36 meses) com a situação de 1993 (crescimento de 1% e inflação intolerável). Bolsonaro sustentou que "a fujimorização é a saída para o Brasil", em referência ao autogolpe do presidente peruano Alberto Fujimori. Segundo o deputado, a "cirurgia política" consistiria em fechar o Legislativo temporariamente e permitir que o presidente governasse por decreto, alegando que a população nas ruas pedia a volta da disciplina militar.
A reação da imprensa veio em editoriais de O Estado de S. Paulo. Em 26 de junho de 1993, o jornal destacou que, embora repudiasse o teor antidemocrático das falas, o capitão "sabia interpretar um sentimento profundo" de rejeição popular a um Congresso omisso. Uma semana depois, em novo editorial, o jornal minimizou os riscos reais de uma insurreição sob o comando do parlamentar, registrando que quem conhecia o capitão da reserva sabia que ele não possuía tropas ou liderança e que "levá-lo a sério como golpista é sinceramente um pouco demais".
5. A transição de 'líder da caserna' a fenômeno nacional através da pauta de costumes
Até o final dos anos 2000, Bolsonaro permaneceu como um parlamentar de nicho corporativo. A grande virada em sua projeção eleitoral ocorreu a partir de 2010, quando percebeu o potencial de tração de um novo vetor político: o discurso anti-gay e a postulação como defensor da "família tradicional".
Para romper a bolha da caserna e atingir o grande público, Bolsonaro transformou a presença constante em programas populares de televisão (como CQC, Ratinho e SuperPop) em sua principal alavanca eleitoral. As declarações polêmicas garantiam audiência às emissoras e, em troca, projetavam seu nome nacionalmente. Os dados do banco de discursos da Câmara evidenciam essa alteração estatística radical:
Frequência do tema nos discursos na Câmara (2000–2010): O termo "gay" apareceu em apenas 1,6% dos pronunciamentos, enquanto "família" esteve presente em 7,2%.
Frequência do tema nos discursos na Câmara (2011–2018): O termo "gay" saltou para 12,7% (multiplicado por 8), enquanto "família" alcançou 20,8%.
O reflexo nas urnas foi imediato. Em 2014, ao assumir o protagonismo da guerra cultural contra a esquerda, Bolsonaro tornou-se o deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro, com 464.000 votos — quadruplicando seu desempenho de 2010. O movimento foi tão abrupto que, em abril de 2014, quando o jornalista Lauro Jardim noticiou na coluna Radar da Veja que Bolsonaro pedira ao seu partido (o PP) para ter o nome testado em pesquisas presidenciais por Ibope e Datafolha, a nota foi tratada em tom jocoso pela imprensa como uma tentativa do deputado de "fazer mais uma graça".
Conclusão: O poder de dizer o que muitos queriam ouvir
Por quase três décadas, Jair Messias Bolsonaro foi encarado pela imprensa e pelos polos estabelecidos de Brasília como um expoente folclórico do "baixo clero" parlamentar. Trocando repetidamente de legenda dentro do centrão, sem liderar bancadas expressivas, sem deixar uma produção legislativa relevante e sustentando posições econômicas e geopolíticas frequentemente mutáveis, nada em sua rotina parlamentar parecia indicar a construção clássica de uma candidatura presidencial vitoriosa.
No entanto, a chave de sua ascensão esteve na capacidade de preencher vácuos de representatividade em momentos de crise institucional. Seja ao encampar o soldo dos praças nos anos 1980, ao dar voz ao sentimento antiparlamentar nos anos 1990 ou ao canalizar o conservadorismo moral e a guerra cultural na década de 2010, sua força política manteve-se ancorada na premissa registrada naquele primeiro relatório secreto do Exército em 1986: a percepção de uma parcela do eleitorado de que, diante das omissões do sistema, "alguém tinha que falar".
Diante de uma trajetória construída sobre o aproveitamento contínuo de insatisfações represadas, resta a reflexão: até que ponto o surgimento e a consolidação de lideranças populistas de massa são o sintoma inevitável da incapacidade das instituições tradicionais em escutar as demandas do eleitorado?
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