De '300 Picaretas' à Coalizão com Judas: 5 Lições Maquiavélicas Sobre o Pragmatismo do Poder no Brasil
Introdução: O Dilema Eterno Entre Ideais e Governabilidade
A conquista do poder estatal impõe um dilema crucial para qualquer força política: a colisão inevitável entre os ideais doutrinários e a dura realidade da governabilidade. Quando a contagem dos votos se encerra, a retórica inflamada da campanha precisa ceder espaço ao pragmatismo da negociação institucional, forçando governantes a negociar com forças políticas que, até a véspera, figuravam como adversários diretos.
Esse movimento ficou evidente no cenário pós-eleitoral, no qual apenas cinco dias após a apuração das urnas, a liderança do governo abriu negociações formais para a composição de ministérios com partidos que haviam declarado apoio formal a Flávio Bolsonaro no segundo turno — como PP, Republicanos, União Brasil, MDB e Podemos. Sob a justificativa de construir uma base aliada estável e exigir "lealdade" às pautas do Executivo, a articulação política revelou que a sobrevivência governamental sobrepõe-se rapidamente aos antagonismos do pleito.
Essa dinâmica ilustra a perfeita aplicabilidade da lente de Nicolau Maquiavel, que há mais de 500 anos expôs em O Príncipe a distância intrínseca entre o discurso moral e a ação política concreta necessária para conquistar e manter o poder.
1. Do Manifesto Antissistema à "Carta ao Povo Brasileiro" (O Nascimento da Virtù)
O percurso histórico do Partido dos Trabalhadores revela uma transição marcante entre a rejeição da política tradicional e a adoção de um pragmatismo amplo. Em 10 de fevereiro de 1980, reunidos no Colégio Sion, em São Paulo, os fundadores do PT aprovaram seu manifesto de fundação. O documento fazia duras críticas às estruturas estabelecidas, afirmando que os trabalhadores estavam cansados de servir de "massa de manobra" para políticos e partidos comprometidos com a manutenção da ordem vigente.
"Somos um partido dos trabalhadores, não um partido para iludir os trabalhadores." — Manifesto de Fundação do PT (1980)
Contudo, a intransigência ideológica encontrou seus limites nas urnas. Anos mais tarde, em setembro de 1993, na cidade de Ariquemes (Rondônia), o tom crítico em relação ao Congresso Nacional atingiu seu cume com a famosa declaração de que havia no Poder Legislativo uma minoria voltada ao país e uma maioria de "300 picaretas" dedicada a interesses próprios. Após três derrotas consecutivas nas disputas presenciais de 1989, 1994 e 1998, a estratégia de confronto direto cedeu lugar a uma reorientação tática decisiva.
Em 22 de junho de 2002, em São Paulo, foi divulgada a "Carta ao Povo Brasileiro". O documento de quatro páginas buscou tranquilizar o mercado financeiro ao garantir o respeito aos contratos, a preservação do superávit primário e o anúncio de uma vasta aliança suprapartidária, simbolizada pela escolha do empresário José Alencar (do Partido Liberal) para a vaga de vice-presidente.
Sob a ótica da teoria política, essa guinada traduz perfeitamente o conceito maquiavélico de virtù: a capacidade estratégico-política do governante de moldar sua conduta às imposições da fortuna (as circunstâncias do momento) para alcançar e reter o poder. Longe de representar a virtude moral judaico-cristã, a virtù exige a flexibilização do dogma ideológico quando a realidade política assim o exige.
2. A Teoria de "Jesus e Judas" e as Alianças Sem Arrependimento
Uma vez no Executivo, a manutenção da governabilidade exigiu a incorporação sistemática de figuras e legendas historicamente combatidas, elevando o pragmatismo à condição de regra de sobrevivência. Diante de crises institucionais e escândalos morais, a fidelidade aos princípios fundacionais cedeu espaço à preservação da sustentabilidade da base aliada.
Em junho de 2009, no auge do escândalo dos mais de 500 atos secretos do Senado — utilizados para conceder aumentos e nomear parentes, incluindo duas sobrinhas e um neto do então presidente da Casa, José Sarney —, o comando do Executivo saiu em defesa do aliado. Em 17 de junho, durante viagem oficial ao Cazaquistão, a Presidência afirmou publicamente que Sarney possuía história no país suficiente para não ser tratado "como se fosse uma pessoa comum". Meses depois, em outubro do mesmo ano, a justificativa teórica para tais arranjos foi sintetizada de forma explícita:
"Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão." — Luiz Inácio Lula da Silva
A declaração gerou reação imediata no meio político, sintetizada pela ponderação do então senador Cristóvam Buarque: "Jesus poderia perdoar Judas; fazer acordo jamais." Ainda assim, a lógica das alianças sem restrições prosseguiu.
Em 18 de junho de 2012, o pragmatismo manifestou-se no célebre almoço de feijoada na residência de Paulo Maluf. O apoio formal do PP de Maluf à candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo garantiu um acréscimo de um minuto e meio na propaganda de TV e um cargo para a legenda no Ministério das Cidades sob o governo Dilma Rousseff. Embora o acordo tenha provocado a renúncia imediata de Luiza Erundina da vice-liderança da chapa, a liderança governista declarou publicamente, uma semana depois, não se arrepender "nem um pouco" da composição realizada.
3. A Matemática Cruel da Câmara: Por Que Ninguém Governa Sozinho
A explicação para a união com antigos adversários não reside em uma guinada moral, mas na matemática crua do Presidencialismo de Coalizão brasileiro. A conquista da Presidência da República não assegura maioria na Câmara dos Deputados, transformando as alianças suprapartidárias em uma imposição aritmética inescapável.
Ao analisar a distribuição das bancadas eleitas na Câmara para a legislatura de 2027, a contagem regressiva da votação evidencia a dependência estrutural do Executivo em relação aos partidos que apoiaram a oposição no segundo turno:
- Piso legislativo exigido: São necessários 257 deputados para aprovar uma Lei Complementar (maioria absoluta) e 308 deputados para aprovar uma Emenda Constitucional.
- Bancada da coligação eleita: Os partidos integrantes da coligação vitoriosa elegeram apenas 124 deputados.
- Soma com o PSD: Adicionando a bancada do PSD (167 deputados no total), a base alcança 167 assentos, permanecendo 90 votos abaixo do necessário para Leis Complementares.
- Soma com o MDB: Incorporando a totalidade do MDB (203 deputados no total), o bloco atinge 203 assentos, ainda registrando um déficit de 54 deputados para a maioria simples.
- Déficit para Emendas Constitucionais: Mesmo computando 100% dos parlamentares do PSD e do MDB, a base governista ainda necessita de 105 deputados para alcançar os 308 votos exigidos para alterar a Carta Magna.
Essa demonstração numérica comprova que é impossível construir governabilidade na Câmara sem pactuar com legendas como PP, Republicanos, União Brasil e Podemos — forças que, dias antes, pediam votos contra o próprio projeto vencedor.
4. Da "Cena do Crime" à Vice-Presidência: A Racionalidade Maquiavélica
A reaproximação entre antigos antagonistas políticos representa a aplicação clássica das lições de Maquiavel sobre a preservação e o exercício do poder. Em 9 de dezembro de 2017, durante discurso na convenção do PSDB, Geraldo Alckmin acusou abertamente o PT e suas lideranças de tentarem "voltar à cena do crime". Cinco anos depois, em 12 de dezembro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral diplomou a chapa composta por Lula na Presidência e Alckmin na Vice-Presidência, sob o selo de uma "frente ampla".
"Os homens julgam mais pelos olhos do que pelas mãos; todos veem o que você parece, poucos sentem o que você é." — Nicolau Maquiavel (O Príncipe)
A aliança entre rivais históricos encontra fundamento no Capítulo 18 de O Príncipe, no qual Maquiavel postula que um governante prudente não deve manter a palavra dada quando o cumprimento dela se torna prejudicial ou quando as razões que motivaram a promessa deixam de existir. Para o realismo político, acusações passadas cederam lugar à utilidade pragmática de viabilizar a vitória e a sustentabilidade do governo.
5. O Dilema da Transparência: Lealdade ao Projeto ou à Lista de Cargos?
Desde a promulgação da Constituição de 1988, nenhum presidente governou o Brasil sem estruturar uma coalizão suprapartidária. A negociação de cargos executivos e a montagem de ministérios não constituem ilegalidade ou anomalia; representam a engrenagem padrão da governabilidade no sistema político brasileiro.
O problema ético central reside na opacidade das trocas e na ausência de prestação de contas ao eleitorado. O governo passou a exigir "lealdade" votacional aos seus projetos em troca do loteamento da Esplanada — nomeando ministros do PP e União Brasil (como André Fufuca e Celso Sabino), que chegaram a permanecer nos cargos mesmo quando suas legendas anunciaram posições de oposição.
A distorção institucional ocorre quando composições são seladas nos gabinetes sem que seja tornado público o que cada partido recebe e qual contrapartida legislativa exata compromete-se a entregar. Sem transparência, a fronteira entre a construção de uma agenda programática de país e o simples balcão de negócios por cargos torna-se indistinta.
Conclusão: As Ideias São Lentes, Não Verdades
Ao longo de 46 anos de atuação pública, a liderança governamental demonstrou dominar as regras do presidencialismo de coalizão como poucos atores na história recente do país. Essa capacidade de adaptação garante vitórias eleitorais e viabiliza a gestão do Estado, mas cobra um preço elevado no campo da coerência e da transparência institucional.
A trajetória das composições políticas no Brasil expõe que o exercício real do poder impõe concessões contínuas em nome da governabilidade. Diante dessa engrenagem, resta a provocação inevitável: a garantia da governabilidade justifica o pragmatismo absoluto e a flexibilização de princípios, ou o eleitor tem o direito de exigir total transparência sobre o preço cobrado pelas concessões do poder?
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar.
Postar um comentário
O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *