Por que não tem fios nas ruas dos EUA?

 


A Ausência de Fios nas Ruas dos EUA: História, Engenharia e Urbanismo

A estética das ruas americanas, marcada pela ausência de postes e fiação aérea em muitos bairros, é um tema que desperta curiosidade e envolve questões que vão desde a valorização imobiliária até a segurança pública. Segundo as fontes, a decisão de enterrar a fiação não é apenas estética; trata-se de um processo histórico moldado por desastres naturais, regulamentações rigorosas e viabilidade econômica.

O Surgimento da Rede Elétrica e a Solução Subterrânea

A história da eletricidade residencial começou no século XIX com Thomas Edison, que desenvolveu o dínamo de corrente contínua. Inicialmente, prédios em Nova York possuíam suas próprias mini-usinas a vapor nos subsolos, o que gerava barulho e fuligem. Em 1882, Edison criou a Pearl Street Station, a primeira usina central para abastecer prédios em Manhattan.

Embora a solução inicial para a distribuição tenha sido a instalação de postes por ser mais barata e rápida, a preocupação com a desvalorização dos imóveis no distrito financeiro (Wall Street) levou Edison a inventar a primeira rede elétrica subterrânea ainda em 1882. Enquanto as áreas nobres tinham fios enterrados, as zonas mais pobres permaneciam com redes aéreas.

Desastres Naturais como Catalisadores de Mudança

A transição definitiva para redes subterrâneas em grandes centros foi impulsionada por eventos climáticos extremos:

  • Nova York (1888): Uma grande nevasca derrubou postes sobrecarregados por fios de eletricidade, telefone e telégrafo. O incidente causou mortes por eletrocussão e levou à normatização de que toda a rede em Manhattan deveria ser enterrada.
  • Califórnia (Década de 1960): Os incêndios florestais (wildfires), agravados por ventos fortes, destruíam postes de madeira. Em 1968, foi criada a Regra 20, que obriga ou incentiva o enterramento de redes elétricas no estado.
  • Flórida (1992): O Furacão Andrew causou danos massivos à rede aérea, onde a queda de árvores interrompeu o serviço de energia por longos períodos. Isso resultou em um novo código de obras (em vigor pleno desde 2001), exigindo que todos os novos condomínios tenham redes subterrâneas para serem aprovados.

Modelos de Gestão: Privatização vs. Municipalização

A implementação dessas redes gera conflitos sobre quem paga a conta. As fontes apresentam diferentes modelos:

  1. Parceria com Concessionárias: Em Nova York, as empresas investiram no enterramento em troca de permissão para aumentar a tarifa de energia.
  2. Municipalização (Winter Park, FL): Após um impasse com a concessionária privada, a cidade comprou a rede por cerca de 42 milhões de dólares. O processo levou 20 anos, mas resultou em maior confiabilidade, preservação de árvores e uma tarifa de energia mais barata que a das cidades vizinhas.
  3. Insucesso em Boulder, CO: A cidade gastou milhões em estudos para municipalizar a rede, mas acabou desistindo e mantendo o serviço privado.

Aspectos Técnicos e Limitações

Atualmente, estima-se que entre 18% e 25% da rede elétrica dos EUA seja subterrânea, concentrada em áreas de alta densidade urbana ou instalações críticas, como hospitais. Em bairros como Celebration, na Flórida, transformadores de alta tensão (caixas verdes nos jardins) e centrais de distribuição de baixa tensão (telefonia e TV a cabo) substituem os equipamentos que, no Brasil, ficam no topo dos postes.

Entretanto, o enterramento não é universal: em áreas rurais, a rede aérea permanece devido ao alto custo de instalação para poucas residências espalhadas por longas distâncias.

O Debate no Brasil

O tema ganhou relevância no Brasil devido a apagões prolongados em cidades como São Paulo. As fontes mencionam que existem projetos de lei em tramitação no Congresso Brasileiro para enfrentar o problema:

  • Propostas que obrigam o enterramento de redes em prazos de até 15 anos.
  • Projetos focados em cidades com mais de 300 mil habitantes (critério de densidade).
  • Criação de programas nacionais de investimento em infraestrutura para acelerar essa transição através de parcerias público-privadas.

Em suma, a ausência de postes observada em locais como a Flórida é fruto de uma evolução de códigos de obras rigorosos e uma visão de longo prazo sobre resiliência urbana e valorização do patrimônio.