O Lado Sombrio de Roraima | O Impacto da Venezuela no Brasil

 


Roraima: Entre a Exuberância do Mapa e a Fragilidade do Cotidiano

Roraima é frequentemente retratado como uma fronteira exótica, composta por florestas infinitas e paisagens intocadas, mas essa imagem idealizada esconde um estado pressionado por crises sobrepostas que operam em um constante modo de emergência. O estado vive um paradoxo evidente: embora possua uma localização estratégica única, fazendo fronteira com a Venezuela e a Guiana, e abrigue riquezas naturais e geológicas raríssimas — como o Monte Roraima —, ele insiste em figurar entre os piores indicadores sociais do Brasil.

O isolamento geográfico é um dos pilares dessa fragilidade. Roraima é cercado por distâncias que não são apenas físicas, mas também políticas e estruturais. A dependência de uma única ligação terrestre, a BR-174, torna a logística lenta, cara e imprevisível, uma vez que o trecho que cruza terras indígenas permanece fechado durante a noite por segurança, elevando o custo de vida e a inflação local. Sem ferrovias ou portos, o estado consome mais do que produz e permanece refém de decisões tomadas em Brasília.

A realidade cotidiana é marcada por dois cenários distintos: o Roraima dos cartões-postais e o Roraima invisível, onde a população lida com a precariedade e o abandono. Nos últimos anos, essa estrutura já fragilizada foi levada ao limite pela crise migratória venezuelana. Estima-se que cerca de 186 mil venezuelanos vivam no estado, o que representa quase um quinto de toda a população local. Esse fluxo migratório transformou a capital, Boa Vista, em uma cidade pressionada além de sua capacidade, com abrigos superlotados e uma sobrecarga severa nos serviços públicos: aproximadamente 30% dos atendimentos de saúde e 10% das matrículas escolares são destinados a migrantes.

No coração do estado, a terra é o centro de disputas profundas. Com mais de 40% do território composto por áreas indígenas, Roraima enfrenta um cenário fundiário complexo onde a preservação ambiental e os interesses econômicos raramente convergem. É nesse vácuo de autoridade e clareza jurídica que o garimpo ilegal se expande, devastando o povo Yanomami com doenças, contaminação por mercúrio e violência. A ausência de alternativas econômicas sustentáveis empurra parte da população para a ilegalidade, enquanto o discurso da preservação nem sempre é acompanhado de políticas reais de desenvolvimento.

O impacto mais silencioso, contudo, é a falta de horizontes para os que ali nascem. Em Roraima, existe a sensação de que "ficar é provisório". O mercado local, concentrado na administração pública e no comércio básico, não consegue absorver os jovens qualificados pelas universidades locais, transformando a educação em uma "ponte de saída" em vez de uma base de permanência.

Refletir sobre Roraima exige entender que o estado não pode continuar sendo tratado como um território de passagem ou um laboratório de crises. A riqueza que reside no subsolo e na biodiversidade ainda não se traduziu em bem-estar coletivo, deixando o estado em uma busca perpétua por um equilíbrio que nunca se fecha.

Analogia para compreensão: Podemos imaginar Roraima como um navio de luxo imenso e valioso que está ancorado longe da costa e sem combustível próprio. Ele possui tesouros em seu porão e uma vista magnífica, mas depende inteiramente de barcos menores que tragam suprimentos de um porto distante. Se o mar fica agitado ou se os barcos atrasam, quem está a bordo sofre com a escassez, apesar de estar cercado por uma riqueza que não consegue acessar ou transformar em movimento autônomo.


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