Fim da AUTOCUSTÓDIA em cripto? Nova regra do Banco Central exige CPF da carteira? A realidade.

 


Este artigo explora as recentes mudanças regulatórias no mercado de criptoativos no Brasil, fundamentado nas análises do Dr. José Milagre sobre as Resoluções 519, 520 e 521 do Banco Central do Brasil. O objetivo é desmistificar informações incorretas que circulam sobre o fim da privacidade e da autocustódia.


O Novo Cenário Regulatório: Resoluções 519, 520 e 521

O Banco Central do Brasil iniciou a edição de um conjunto de normas para regular o mercado nacional de ativos digitais, com foco em prazos para que empresas (incluindo exchanges) obtenham autorização para operar. As resoluções tratam de compliance, segurança digital e garantias dos prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs).

A Resolução 520 é o principal ponto de discussão, pois foca em governança, gestão de risco, prevenção à lavagem de dinheiro (AML) e proteção ao cliente. Ela não dita como o usuário deve usar sua carteira privada, mas sim como as instituições reguladas devem operar no país.

A Autocustódia e o Mito do "CPF na Carteira"

Ao contrário do que tem sido divulgado em vídeos com leituras superficiais da norma, a autocustódia de criptoativos não acabou.

  • Liberdade de Custódia: Os usuários continuam autorizados a guardar seus ativos em hard wallets ou soft wallets de forma legal e privada.
  • Inexistência de Cadastro Nacional: A resolução não cria um cadastro nacional de carteiras nem obriga o registro de toda e qualquer carteira no Banco Central.
  • Exigência de CPF: Não existe a figura do "CPF da carteira" na norma. O que ocorre é que, ao transacionar com uma exchange ou banco (intermediários regulados), a instituição pode solicitar a declaração de titularidade ou informações adicionais, mas isso ocorre com base em uma avaliação de risco e não de forma automática para toda transação.

O Papel das Exchanges e a Análise de Risco

As corretoras e prestadores de serviços agora têm o dever de realizar uma análise rigorosa de risco das operações.

  1. Sistemas AML: As exchanges utilizarão ferramentas de inteligência artificial e bancos de dados forenses para identificar endereços ou hashes suspeitos.
  2. Diligência de Origem e Destino: Se uma transação envolver valores atípicos, mudanças abruptas de comportamento ou vínculos com atividades ilícitas, a instituição poderá exigir esclarecimentos, identificar o titular da carteira remetente/destinatária ou até bloquear fundos.
  3. Transações Anônimas: Enviar ou receber de carteiras "anônimas" não é crime. A exchange só intervirá se sua análise de risco detectar ligação com fraudes, sanções ou lavagem de dinheiro.

Impacto no P2P e em Exchanges Internacionais

  • P2P (Peer-to-Peer): As trocas diretas entre pessoas físicas permanecem fora da regulação direta, dada a dificuldade de monitoramento. Contudo, plataformas P2P estruturadas que operam no Brasil são enquadradas como VASPs e devem seguir as regras de compliance.
  • Transações Internacionais: O uso de redes como a Liquid Network ou sidechains, que aumentam a privacidade e não revelam valores on-chain, não é proibido ou sequer mencionado pela norma.
  • Exchanges Estrangeiras: Corretoras que não possuem CNPJ, não fazem marketing para o Brasil, não aceitam Pix e não usam o português como idioma principal não estão automaticamente sujeitas a essas resoluções.

Privacidade como Direito

É fundamental compreender que privacidade não é ilegalidade; é um direito e uma proteção legítima para o patrimônio. No entanto, ao entrar no sistema bancário ou em exchanges, o usuário ingressa em um ambiente regulado onde a exposição é maior.

Para manter a segurança e a privacidade, as recomendações incluem:

  • Priorizar a autocustódia e proteger suas chaves privadas.
  • Minimizar intermediários, pois quanto menos empresas envolvidas, menor a exposição de dados.
  • Utilizar a separação de contextos, evitando misturar todos os fluxos financeiros em uma única conta ou estrutura, o que gera metadados e padrões identificáveis por ferramentas de análise.

Em suma, embora as regras tenham se tornado mais rígidas para os intermediários financeiros para evitar crimes, o direito do cidadão de possuir e gerir seus próprios ativos digitais de forma independente permanece preservado pela legislação brasileira.


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