Este artigo propõe uma reflexão sobre os complexos embates entre a visão punitivista do Estado e a realidade do sistema carcerário brasileiro, tomando como base o intenso debate entre o Sargento Fahur e um grupo de ex-detentos.
O Cárcere: Punição Severa ou Fábrica de Criminosos?
Um dos pontos centrais da discussão é a finalidade da prisão. Para o Sargento Fahur, a cadeia possui uma função primária e clara: punir o indivÃduo pelo crime cometido. Ele argumenta que a ressocialização depende quase exclusivamente da vontade do detento e que o Estado não deve "passar a mão na cabeça" de criminosos. Fahur sustenta que a impunidade e a baixa punição são os verdadeiros motores da reincidência criminal no paÃs.
Por outro lado, egressos do sistema, como Arquimedes Castro, defendem que a polÃtica de pura punição é falida. Segundo essa visão, o sistema prisional atual é um "péssimo investimento" para o cidadão, pois muitas vezes o Estado recebe um "ladrão de galinha" e devolve à sociedade um membro de organização criminosa, potencializando o crime em vez de extingui-lo. Essa perspectiva sugere que a falta de polÃticas efetivas de ressocialização transforma os presÃdios em centros de recrutamento para facções.
Caráter Individual vs. Negligência Estatal
O debate também atravessa a origem da criminalidade. O sargento afirma enfaticamente que entrar no crime é uma questão de caráter e não de pobreza, argumentando que até crianças pequenas têm noção do que é certo ou errado. Ele cita exemplos de pessoas que, mesmo em extrema dificuldade, não optam pelo crime.
Contudo, os ex-detentos trazem o olhar sobre a negligência do Estado na educação e na formação ética. Argumentam que em lares disfuncionais e comunidades sem assistência, o traficante muitas vezes torna-se a única referência de sucesso e status para o jovem. Para eles, o Estado falha ao não oferecer o mÃnimo para que o indivÃduo construa um caráter sólido longe da criminalidade.
BenefÃcios Penais e Direitos Humanos: Proteção ou Privilégio?
A questão da "saidinha" (saÃda temporária) e das visitas Ãntimas gera grande atrito. O sargento é terminantemente contra, classificando tais benefÃcios como desrespeitosos com as vÃtimas, que não têm "segunda chance". Ele acredita que esses benefÃcios servem para que criminosos continuem a delinquir.
Em contrapartida, há relatos de que a experiência no cárcere é marcada pela ausência de direitos básicos. Detentos descrevem situações de tortura, falta de colchões e condições subumanas. Enquanto Fahur critica os Direitos Humanos como sendo "apenas para bandidos", os egressos afirmam que, na prática, os Direitos Humanos nunca chegaram à s galerias para protegê-los de abusos ou garantir a integridade fÃsica.
A Falibilidade do Judiciário e a Prisão Perpétua
A discussão culmina na proposta de prisão perpétua para crimes hediondos, como estupro seguido de morte. Fahur defende que certas atrocidades não permitem ressocialização. Entretanto, o debate sobre a falibilidade da justiça ganha peso quando ex-detentos relatam prisões injustas e condenações sem provas concretas. A preocupação levantada é: em um sistema judiciário que pode errar ou ser politizado, penas irreversÃveis como a prisão perpétua ou a morte poderiam vitimar inocentes.
Analogia para reflexão: O sistema prisional brasileiro, conforme debatido, assemelha-se a uma represa rachada: enquanto alguns acreditam que a solução é reforçar as paredes com mais concreto (punição e encarceramento em massa), outros alertam que a pressão interna e a falta de tratamento da água (ressocialização e educação) farão com que a estrutura acabe por ceder, inundando a sociedade com uma força ainda mais destrutiva.